UM CANTO À MARGEM NAS TERRAS DO SEM FIM, DE JORGE AMADO E NA TERRA MORTA, DECASTRO SOROMENHO
Esta comunicação apresenta alguns resultados da pesquisa desenvolvida com o apoio da FAPESP. Dessa forma, pudemos observar que os romances Terra morta e Terras do sem fim inserem-se no que se convencionou chamar de literatura de ênfase social. Ambos fazem parte do mesmo momento histórico uma vez que Terra morta foi publicado em 1949 e Terras do sem fim em 1942. Enquanto uma obra está sendo construída em meio ao ambiente da Segunda Guerra Mundial a outra está sendo embalada pelo seu fim. Entretanto, ambas fazem parte da atmosfera sufocante da Guerra Fria. Portanto, num momento de tomada de decisões faz-se da literatura um instrumento de sonhos libertários na esperança de um devir histórico diferente colocando-se em pauta aqueles que estão à margem da sociedade.
Se em Terras do sem fim a narrativa constrói-se em torno do conflito entre o coronel Horácio e a família Badaró, que lutam pela posse das Matas de Sequeiro Grande, num crescente desenrolar de crimes e falcatruas, em Terra morta temos o conflito entre o colonizador e o colonizado. Assim, Castro Soromenho e Jorge Amado, a partir de seus textos, acabam por registrar a formação de uma sociedade cuja lei é sempre a do mais forte passando por cima das alteridades e da humanidade do homem.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que Jorge Amado eleva os senhores de terras por seu empreendimento desbravador, o romance vai aos poucos exibindo o processo de reificação dos alugados:
Agora a lua de Estância está sobre o navio mas não tem aquela cor amarela com a qual cobria os namorados na ponte. Ela está vermelha, tinta de sangue e um velho diz que ninguém volta destas terras do cacau. p. 29
(...)
A terra era fácil em Ilhéus, plantaria uma roça de cacau, colheria os frutos, voltaria por Ivone e pela criança . O pai dela não voltou, ninguém sabia mesmo onde ele estava. Um velho está dizendo que ninguém volta destas terras, nem mesmo os que tem mulher e dois filhos. Por que essa harmônica não pára de tocar, por que essa música é tão triste? Por que é vermelha como sangue essa lua sobre o mar? p.30
(...)
A canção é triste como um presságio de desgraça. O vento que corre sobre o mar arrasta consigo e a espalha em sons musicais que parecem não terminar. Uma tristeza vem com a música, envolve os homens da terceira, toma conta da mulher grávida que aperta o braço de Filomeno. Os sons da harmônica acompanham a melodia que o jovem canta com uma voz forte.
Uma canção diz que jamais voltarão, que nessas terras a morte os espera atrás de cada árvore. E a lua é vermelha como sangue, o navio balança sobre as águas intranqüilas. p.31 (Terras do sem fim)[1]
A música vem como um presságio de desgraças, acompanha os trabalhadores e vai também ditando as regras do jogo: sangue e caxixes. O velho, a voz da experiência escuta a harmônica que não pára de tocar, o mar, o vento e o frio anunciam que vai ser um jogo difícil de vencer, haverá mais empecilhos do que o homem - a natureza parece que também vai impor suas armas.
Após a mal dormida noite no navio, os trabalhadores, já contratados por Juca Badaró, desembarcam direto no seio da floresta virgem. Impenetrável, profunda, medonha, a mata- “mar nunca explorado cerrado em seu mistério”- é acordada do “sono jamais interrompido” pela chegada dos intrusos. E, qual divindade furiosa, reage conjurando raios e trovões, despertando os seres míticos ali recolhidos pelo imaginário popular (lobisomem, caapora, mula-sem-cabeça...), nesse instante, os trabalhadores se sentem penetrando um espaço sagrado e passam a ouvir, em meio aos estrondos, o “grito do lobisomem” e o tropel da mula-de-padre”. A anunciada tempestade se faz dilúvio, os homens tremem, pois vêem os raios de fogo saírem das “narinas do boitatá” e enxergam na escuridão o “bailado sinistro da caapora”. Pouco a pouco o medo os domina. Vão recuando, largando foices e machados pelo caminho, primeiro com dificuldade, depois em passos largos até atingirem a picada, e aí “é uma corrida só, pois a “mão do homem pode se levantar contra o deus”. Instaura-se aí um novo tipo de tensão, o homem tem que vencer as adversidades da natureza que se faz como uma divindade.
Da mesma maneira em Terra morta, pois, à medida que vamos adentrando o território de Camaxilo, vamos trilhando de perto e por dentro um pouco da realidade de quem está à margem e a terra desconhecida vai-se fazendo com fúria pela intromissão do homem nos seus recantos mais sagrados:
Para lá do capinzal que se levantava acima de um homem, no alto da povoação e a seguir à senzala dos sipaios, só havia o cemitério e o silêncio do cemitério, sem coveiro, nem guarda. Ao redor era o matagal bravio com fojos de onças e pássaros acantarem no alto das árvores de flores vermelhas . Ali, raras vezes se dava corpo à sepultura, porque os negros que morriam nas senzalas eram enterradas à beira dos caminhos, nas margens dos rios ou nas florestas, conforme os ritos da tribo. E os que faleciam na vila, a família vinha buscá-los para lhes fazer os funerais à moda da terra, cantando-os nos batuques dos mortos. Um ou outro, sem família nem amigos, é que era enterrado no cemitério, cabendo aos presos a tarefa de abrir o coval. E ninguém mais voltava lá. Só as hienas, noite calada, se aproximavam dos seus altos muros para chorarem a sua fome de cadáveres. Pela noite em fora, as brisas traziam até à vila seus uivos selvagens e tristes. p. 97 (Terra morta)[2].
Diante do “silêncio do cemitério”, do “matagal bravio” faz-se o canto à margem seja no entoar das vozes ou no som mais uníssono possível - o batuque dos mortos. O narrador, parece transformar seus olhos em câmera, pois, viaja pelas terras da lunda e traz imagens de uma terra em combustão, o ardor do corpo produz mais e mais miséria na pele dos contratados:
O sol caía a prumo nas costas dos negros, homens e mulheres, dobrados pela cintura, cava que cava, com as enxadas de dois cabos curtos, abrindo uma picada através do capinzal. Os braços cansados começavam a dar pouco rendimento e as bocas secas e sujas de poeira pediam água. De vez em quando, aqui e ali, os mais fracos endireitavam o dorso e deitavam as mãos aos rins doridos, fazendo caretas. Mas, logo, os gritos dos capitas os atiravam para a frente, partidos pelo meio, e as enxadas subiam e desciam, a rebrilharem ao sol. p.95 (Terra morta).
A única ação que se anuncia é “cava que cava” de homens que “dobrados pela cintura” estão “partidos pelo meio”. Homens “repartidos” contratados e alugados parecem se irmanar numa trajetória singrada pelos ventos malditos de terras sem lei. De um lado, uma política mundial que, no caso de Portugal, tem como mentor o ditador Salazar, por outro, temos o mandonismo latente endossado por um governo que se diz a favor da ordem e do progresso.
Em ambos os textos se vão imprimir as pegadas da tensão imposta pelos conflitos semeados por aventureiros e coronéis (Terras do sem fim) e por funcionários administrativos e negros angolanos (Terra morta). A conciliação se faz impossível, a não ser pelo fato de que ambos os lados, explorador e explorado, compartilham da mesma miséria ditada por um sistema desastroso que viola homens e o próprio meio:
Os contratados para a Companhia de Diamantes do Nordeste, que ali aguardavam uma leva de trabalhadores do Posto do Lubalo para seguirem para as minas, foram capinar a estrada, vigiados de perto pelos capitas, para não ganharem os caminhos cruzados das florestas, onde se costumam esconder dos brancos e dos sipaios.p.40
(...)
Um canto arrastado e monótono veio de longe, trazido pelas brisas da madrugada da planície, e pairou, alongado pelo eco, sobre a vila de Camaxilo. O sipaio, que estava acocorado em frente da fogueira, de guarda à administração, voltou a cabeça para as bandas da planície e ficou-se, enlevado,a ouvir a música triste que vinha dos ermos. Eram os negros das senzalas que marchavam, a caminho da vila, com cargas de cera às costas, a cantar as suas velhas canções de mercadores errantes. p43
(...)
O canto tornou-se harmonioso e mais triste, quando a caravana começou a descer a encosta, no caminho longo para apovoação-de-baixo.p.44 (Terra morta)
Um outro tempo representado por “velhas canções”, a “música que vem dos ermos” denuncia um tempo perdido e vai sendo orquestrada pelos contratados das minas de diamantes.
No caso do episódio Caluis, o batuque introduz o assunto e vai traduzindo o essencial revelando a traição do sipaio Caluis: na qualidade de corneteiro do exército de ocupação, no passado, acompanha uma coluna militar à sua aldeia e aponta ao comandante da coluna o seu soba, o pai Xá Mucuari, que se negara a pagar o imposto da palhota ao Governo de Portugal. Terminada a guerra, Caluis passa de soldado para sipaio, e, um dia, estando de sentinela à administração, ouviu a canção do traidor Caluis, cantada pelos homens de sua terra que vinham a Camaxilo comercializar com os colonos. Caluis, desde então, nunca mais pôde voltar à sua aldeia natal sem dormir sem pensar em feitiçaria:
Tempos depois, quando passou ao largo da sua antiga senzala, a caminho do Posto do Cuilo, ouviu os patrícios cantarem ao som dos atabaques do batuque uma canção em que se falava do traidor Caluis, que matou o soba e entregou as mulheres da sua terra aos soldados brancos e negros estrangeiros. Ele parou a ouvir a canção, que terminava com gritos de ameaça,e, logo percebeu que era a ele que se referiam. Sentiu crescer-lhe uma grande raiva à gente da sua terra e nunca mais pôde dormir sem pensar em feitiços.
Era essa canção que os negros começaram a cantar, na descida para a vila, já com o sol a estender-se encosta a baixo. Ao ouvi-la, o sipaio teve um sobressalto e, com os olhos muito abertos, pôs-se a olhar para todos os lados. Bagas de suor tremeram-lhe na testa enrugada. O vento rumorejou entre as folhas da mangueira e avivou as chamas da fogueira. De um salto, o velho pôs-se em pé, com o coração a bater-lhe apressadamente. Agarrou-se ao cano da espingarda e soltou um alerta, num grito que o sacudiu todo e reboou no vale.p.48 (Terra morta)
Lamúrios perdidos que se fazem com “canto fúnebre” “canções que terminam com gritos de ameaça” a dialogar com o espaço habitado que apenas rumoreja e tenta “avivar as chamas da fogueira” na Terra morta. O “canto arrastado e monótono que vem de longe trazido pela brisa da madrugada da planície” anuncia um pouco de morte. Um eco que paira sobre a vila de Camaxilo e prevê traição, tristeza e se compõe em lamentos.
Consuma-se a destruição do mundo africano que será combinada com a degradação do português enfraquecido pelas condições concretas que enfrenta no interior da colônia e pelo sentido da vida que debilita seu corpo e desmoraliza sua alma. O “canto fúnebre” adentra seres perdidos em mundos desencontrados onde o principal motivo é o lucro, Joaquim Américo, como vimos, é o único que reflete a esse respeito.
Segundo Albert Memmi:
Tendo descoberto o lucro, por acaso ou porque o havia procurado, o colonizador não tomou ainda consciência, apesar disso, do papel histórico que deverá desempenhar. Precisa dar mais um passo no conhecimento de sua nova situação: falta-lhe compreender igualmente a origem e a significação desse lucro. À bem dizer, isso não tardará muito. Poderia demorar muito tempo para ver a miséria do colonizado e a relação dessa miséria com seu bem-estar? Percebe que esse lucro só é tão fácil porque tirado de outros. Em suma, faz duas aquisições em uma: descobre a existência do colonizado e ao mesmo tempo seu próprio privilégio.[3]
Sob esse ponto de vista, revela-se em amplitude e profundidade, o fracasso do projeto colonial africano que subjugou a todo homem em sua humanidade. Do outro lado, em Terras do sem fim, não há menos desprezo pela vida humana:
– Amanhã cedo o empregado do armazém chama por tu para fazer o “saco” da semana. Tu não tem instrumentos pro trabalho, tem que comprar. Tu compra uma foice e machado, tu compra um facão, tu compra uma enxada.... E isso tudo vai ficar por cem mil-réis. Depois tu compra farinha, carne, cachaça, café pra semana toda. Tu vai gastar uns dez mil-réis pra comida. No fim da semana tu tem quinze mil-réis ganho do trabalho - o cearense fez as contas, seis mil-réis a dois e quinhentos, e concordou . – Teu salário é de cinco mil -réis, mas tu não recebe, fica lá pra ir descontando a dívida dos instrumentos... Tu leva um ano pra pagar os cem mil- réis, sem ver nunca um tostão. Pode ser que no Natal o coronel mande te emprestar mais dez mil-réis pra tu gastar com as putas nas Ferradas...
– Isso tu pensa...Antes de terminar de pagar tu já aumentou a dívida...Tu já comprou mais calça e camisa de bulgariana...Tu já comprou remédio que é um Deus nos acuda de caro, tu já comprou um revólver que é o único dinheiro bem empregado nessa terra...E tu nunca paga a dívida...Aqui - e o homem magro fez um gesto circular com a mão abarcando todos eles, os que trabalhavam para os “macacos” e os dois que vinham com o morto das “baraúnas”
– Aqui tudo deve, ninguém tem saldo...p. 102 (Terras do sem fim)
Uma realidade que persiste nos quinhentos anos de um Brasil que questiona até hoje as suas estruturas nacionais, entre elas o de sua identidade. Sem dúvida, é por um passado confuso e conflituoso que se cristaliza a problemática de quinhentos anos. Os “alugados” são apenas uma parte desse Brasil diverso.
A cena citada interpõe a partida do velho defunto, pai de três prostitutas, com a chegada de um novo “alugado”, que aprende o funcionamento do sistema narrado no trecho acima. Nesse instante o romance dá voz a trabalhadores de fazendas diferentes, reunidos em torno do defunto que parte e do cearense recém-chegado. O diálogo de poucas páginas condensa a perspectiva do oprimido na enumeração do diversos aspectos da condição econômica a que estão submetidos.
Entre as “paredes de barro, teto de zinco, chão de terra” está a fragilidade humana que sobrepõe a força do espaço numa tentativa de reencontro, de reconhecimento de seu habitat. E o romance Terras do sem fim, enquanto cruzamento de vozes agonizantes, guarda também espaços onde ecoa o protesto das “novas senzalas”:
Aquele mesmo navio que, como dissemos, representa mobilidade, agora, é sinal de ruína, pois, para as Terras do sem fim os trabalhadores vão como novos escravos, como novas mercadorias. Sob esse ponto de vista, poderíamos dizer que em Terra morta, a terra se faz como uma espécie de metáfora do corpo angolano, fraturado sob o peso de tanta e tão grande pressão e, Terras do sem fim, por sua vez seria a alma angolana que tenta se reconstruir, porém, não consegue suportar os resquícios do passado e se constrói com as migalhas pretéritas:
Pelas fazendas ia um movimento fora do comum. Os trabalhadores partiam todas as manhãs para as roças, a colher cacau, outros pisavam cacau mole nos cochos ou dançavam sobre o cacau seco nas barcaças, cantando suas tristes canções:
Vida de negro é difícil
É difícil como quê...
Lamentos que o vento levava, gemidos sob o sol nas roças de cacau, no trabalho da manhã à noite:
Eu quero morrer de noite
Bem longe, numa tocaia...
Eu quero morrer de açoite
Dos bordados de tua saia
Os trabalhadores gemiam seus cantos nos dias de trabalho, seus cantos de servidão e de amor impossível...p. 204-205 (Terras do sem fim).
Em meio a esse canto triste, mais e mais trabalhadores chegam buscando riquezas numa terra onde a vida humana vale muito pouco. Da mesma maneira, do outro lado do Atlântico ecoam vozes amortecidas que se traduzem no chicote estalado no ar:
Os capitas fizeram estalar no ar e no solo os compridos chicotes de cavalo- marinho, gritaram ordens e a malta começou a descer a estrada, cada um com o seu moleque. Os rapazitos tomavam conta dos balaios e sacos de peixe e farinha de mandioca, que transportariam durante a longa viagem através as matas e campinas do Caluango, as montanhas de Carumbo e planície de Capaia e Cassai. Na berma da estrada, as mulheres disseram-lhes o último adeus. Alguns rasgaram os panos e os cobertores ao meio para lhes dar uma parte. E encheram-nas de recomendações para o soba, a família e os amigos. Outros despediram-se para sempre, a maior parte, por se lhes Ter metido na cabeça a idéia de que morreriam nas minas. Poucos levavam o propósito de fugir durante a viagem e ganharem as florestas, para mais tarde se passarem para o Congo Belga..
Longe, fora da vila, planície em fora, os negros contratados levantaram o seu canto triste ao céu sem sol, as primeiras sombras da noite a descerem sobre Camaxilo e as fogueiras das senzalas a abrirem-se em labaredas. p.87 (Terra morta)
Diante do “canto triste” dos negros contratados, o “céu sem sol”, “as sombras da noite” negam o mito colonialista onde a natureza comparece como cenário exuberante, que tornará maiores os atos realizados pelo conquistador:
Vimos, até aqui que ambos os textos inserem-se no sistema literário, fundado no esforço de construção, questionamento e denúncia de espaços desintegrados ora pela ambição desmedida, ora por desrespeitar o Outro. A esse respeito vale lembrar que segundo Iuri Lotman, a organização de modelos históricos e nacionais linguísticos do espaço ”torna-se a base organizadora da construção de uma “imagem do mundo” de um completo modelo ideológico característico de um dado tipo de cultura.”[4]
Assim, de alguma maneira, orquestra-se a voz do angolano e a do brasileiro integrando o coro de vozes emanada pelo mundo inteiro que está passando por um processo de reintegração. No caso das obras em foco, vendo na terra a promessa de ressurreição ou destruição.
E, finalmente, o romance Terras do sem fim, no decorrer da narração, confirma a profecia de Jeremias, pois, nasce Tabocas sobre o visgo de cacau:
Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em todas as direções,quando os homens aindea não pensavam em derrubar as árvores para plantar a árvore do cacau que todavia não chegara da Amazônia , Jeremias se acoitou naquela mata. Era um negro jovem, fugido da escravidão. Os capitães-do-mato o perseguiam e ele entrou pela floresta onde moravam os índios e não saiu mais dela. Vinha de um engenho de açucar onde o senhor mandara chicoteara as suas costas escravas. Durante muitos anos tivera tatuada nas espáduas a marca do chicote. Mas mesmo quando ela desapareceu, mesmo quando alguém lhe disse que a abolição dos escravos havia sido decretada, ele não quis sair da mata. Fazia muitos anos que chegara, Jeremias havia perdido a conta do tempo, já tinha perdido também a memória desses acontecimentos. Só não havia perdido a lembrança dos deuses negros que seus antepassados haviam trazido da África e que ele não quisera substituir pelos deuses católicos dos senhores de engenho. Dentro da mata vivia em companhia de Ogum, de Omulu, de Oxossi, e de Oxolfã, com índios havia aprendido o segredo das ervas medicinais. Misturou aos seus deuses negros alguns dos deuses indígenas e invocava a uns e a outros nos dias em que alguém ia lhe pedir conselho ou remédio no coração da mata. Vinah muita gente, vinha mesmo gente da cidade, e aos poucos forma abrindo um caminho até a sua cabana , estrada feita pelos passos dos doentes e dos angustiados.p. 121 (Terras do sem fim)
A cidade nasce sobre essa “carne que é estrume de pé de cacau, regada com sangue deles tudo.” A partir desse ser mítico, podemos fazer um paralelo com os seres da Lunda angolana que também carregam consigo o cosmos sagrado. Logo, vale (re)lembrar o episódio Caluis que ao ouvir a canção do traidor Caluis,desde então, nunca mais pôde voltar à sua terra natal sem pensar em feitiçaria. Certo dia, o Secretário manda-o de volta a sua aldeia acompanhado de um capita para prender o soba e as mulheres fugitivos das minas da Companhia de Diamantes do Nordeste. Caluis vai e consegue encontrar-se cara a cara com o soba. Arma-se uma briga; o soba apunhala o sipaio e, no meio da confusão gerada, retira-se e enforca-se.
O soba ao qual nos referimos é o Xá-Mucuari, único soba que não aceitou os mandos e desmandos do colonizador. A partir de sua morte, ao lado da morte do “sacerdote” Jeremais instaura-se na aldeia um questionamento no que diz respeito a tradição e a modernidade. Há um julgamento do que seria o melhor para o africanos nos novos tempos que se anunciavam. Jovens e velhos, o passado e o presente discutem o melhor caminho a ser seguido:
O velho lembrou-lhes que aquela terra estava estragada pelos brancos, que há muito tempo deixaram de comprar borracha, pagavam mal fuba e o milho e só queriam gente forte para as minas, onde morriam os melhores homens da aldeia. E ainda vinham buscar velhos e crianças e as próprias mulheres para trabalharem nas estradas. p.151
Já nada detinha o povo que olvidara a tradição de respeito aos velhos e o temor às leis da tribo. O seu passado estava com o soba morto. Xá-Mucuari, ao dar-se à morte para não sofrer afrontas dos brancos, liberta o povo de um passado que ele próprio não pudera manter em prestígio.”153-4
O mocetão da cicatriz, quando se viu rodeado por uma meia dúzia de velhotes, perguntou ao povo, com ar de troça, se alguma vez alguém viu um grande da tribo usar um nome posto pelos brancos, que ninguém sabia o que significava. Ele chamava-se Duamba, o Leão, o outro Mutondo, a árvore, nomes que se sabia o que queriam dizer; mas Comboio o que era?p. 154 (Terra morta).
A morte do soba Xá Mucuari é vista como o “libertar o povo de um passado que ele próprio não pudera manter em prestígio.” Uma passagem desafiadora, perigosa onde se tecem vários argumentos possíveis, entre eles, o destino de um povo violado em suas alteridades que agora têm que escolher entre aceitar o legado do colonizador ou negá-lo. Não há respostas, há apenas tentativas de entender o que aconteceu com África sem pensar em opressores ou oprimidos, mas em humanidades que, de alguma forma, têm que ser reconstruidas. Para tanto, Comboio, representante dos mais novos dá voz a um novo momento. Seu nome, de acordo com os integrantes da aldeia, nada significa. Talvez seja preciso pegar um comboio a fim de fazer novas descobertas e cumprir a travessia de um novo tempo...
Caluis, Comboio, Jeremias, os trabalhadores africanos, trabalhadores do sertão cacaueiro, Ester, Jovita e, de alguma forma, Virgílio e Joaquim Américo estão unidos em suas misérias porque fazem parte do canto à margem que não consegue ou não pode ser proclamado e se o é, logo é silenciado pela máquina reificadora- O medo unifica, tudo o mais separa. Ora em comunhão com a árvore, com a música ou apenas através da palavra que parece, por vezes acenar para terras mais humanas como uma possibilidade de ressurreição no mundo reificado. O trabalho e a música se fazem como caminho de fuga das garras da loucura que anuncia sempre um pouco de morte.Vimos que o caminho escolhido por D. Jovita foi o jardim, trilha alienadora enquanto Ester rumou para o adultério e Virgílio para a morte e Joaquim Américo optou pela partida. Itinerários diferentes na tentativa de ação em terras perdidas que se fazem ouvir pelos batuques ou pela canção dos sertanejos do cacau porque acompanham os passos da miséria e simbolicamente sugerem a crença na mudança. A mensagem cifrada do batuque não deixa de ser captada por brancos atentos à provisoriedade da submissão ou ainda, através das histórias que se contam/cantam nas matas de Sequeiro Grande, insistindo sempre na magia da palavra que quer ser somente de morte e destruição.O distanciamento com que os narradores procuram mirar a cenas não impede que, de algum modo, eles encontrem um jeito de assinalar doses de uma sutilíssima cumplicidade, própria de quem na letargia adivinha um movimento de quem está num canto à margem.
[1] Jorge AMADO. Terras do sem fim. São Paulo: Martins, 1970
[2] Castro SOROMENHO. Terra morta. Lisboa: Sá da Costa, 1979
[3]Albert MEMMI. O retrato do colonbizado precedido pelo retrato do colonizador. Trad. Roland Corbisier e Mariza P. Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 24
[4] Iuri LOTMAN. A estrutura do texto artístico. Trad. M.C. Raposo e A. Raposo. Lisboa: Estampa, 1978. p. 361.